O Poder dos Alimentos

Freqüentemente os meios de comunicação social abordam a dramática situação da saúde no Brasil, enfatizando, muitas vezes, o caso das enfermidades do Terceiro Mundo, (como o cólera, a leptospirose, dengue, febre amarela, por exemplo), que se disseminam com perigosa desenvoltura.
A meu ver, no entanto, tais abordagens acabam por subestimar o alcance que hoje possuem na realidade brasileira os males crônico-degenerativos, ditos de Primeiro Mundo, como o câncer, o diabetes e os males cardíacos.
Sem qualquer intenção de voltar as costas para as "doenças miseráveis", que obviamente expressam a escandalosa crise social brasileira, gostaria de demonstrar, ainda que sucintamente, a dimensão que entre nós assumem as chamadas enfermidades de Primeiro Mundo. Para ter-se uma idéia do seu impacto e, empregando sempre dados do Ministério da Saúde, atentemos para o fato de que, das 900 mil mortes anuais no Brasil, 28% (isto é, pouco mais de 249 mil) ocorrem por males cardiovasculares, enquanto que 100 mil dos óbitos ocorrem por variados tipos de câncer. O Brasil ostenta 5 milhões de diabéticos, 12 milhões de hipertensos e 27 milhões de pessoas com excesso de peso. Somente as doenças crônico-degenerativas são responsáveis por 25% das internações hospitalares no Brasil, consumindo com isso recursos na ordem de US$ 500 milhões. Considerando o uso de materiais especiais, próteses e assistência ambulatorial, o gasto com tal tipo de doença alcança US$ 1 bilhão.
Segundo estimativas oficiais, somente essas enfermidades consumiram, no Brasil, um milhão e trezentos mil anos de vida. O fato beira ao escândalo, se considerarmos a repercussão econômica e social e a dimensão humana de tais perdas.
Vê-se, portanto, que é amplo e oneroso o universo da ocorrência das doenças crônico-degenerativas no Brasil. Sua convivência com as chamadas "doenças miseráveis", terceiro mundistas, quase todas eliminadas nos países ricos, decorre da brutal deformação estrutural que mutilou o desenvolvimento econômico e social brasileiro, criando, simultaneamente, zonas de uma abastança próxima ao Primeiro Mundo, ao lado de regiões miseráveis que já atingem a fronteira de um Quarto Mundo. O Brasil não pode fechar os olhos a nenhuma delas e deve avançar na constituição de um projeto nacional capaz de reduzir, tanto quanto possível, as enormes distâncias sociais.
No tocante às doençascrônico-degenerativas, segundo o Ministério da Saúde, a prevenção e cura estão essencialmente ligadas a hábitos como alimentação e atividades físicas, para cuja implementação não se exigem gastos significativos.
Considere-se que a diminuição da incidência dessas enfermidades permitiria o melhor redirecionamento dos recursos públicos da saúde, carreando-os dos custosos processos de cura das doenças crônico-degenerativas para as da área básica, fortalecendo a possibilidade de erradicar do Brasil os males terceiromundistas. Hábitos mais saudáveis, no entanto, implicam processos massivos de educação, amplas campanhas de esclarecimento. O desafio pertence ao conjunto da sociedade, através das suas várias instâncias organizadas, a começar pelos meios de comunicação, com seu largo poder de convencimento. Afinal, é enorme a responsabilidade social da imprensa. É de se repetir que a redução da incidência das doenças crônico-degenerativas não apenas defenderá a saúde de milhões de brasileiros, como possibilitará a transferência de ponderáveis recursos para as áreas básicas cujas deficiências ameaçam a vida de outros milhões de compatriotas.
Se a atuação dos meios de comunicação social e da indústria , se somassem ao das autoridades educacionais e da saúde pública, nos três níveis de governo, as instâncias legislativas, os organismos representativos de classe, num esforço conjunto para redirecionar os hábitos da população para padrões mais aceitáveis, já teríamos cumprido um passo decisivo para a melhoria da saúde dos brasileiros.

Paulo Eduardo Passos de Paula, empresário e presidente da ABIANI

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